domingo, 29 de maio de 2011

1ª Guerra Mundial

Ver fotos da 1ª Guerra Mundial

O motivo da 1º Guerra não poderia
ser outro: econômico. Os países imperialistas desejavam novas áreas de mercado para obterem mais lucro.

No final do séc. XIX os monopólios capitalistas cresceram tanto que queriam explorar além do mercado nacional, ou seja, empresas da Inglaterra, EUA, França e outros países queriam explorar o mercado de áreas fora de suas fronteiras.

Os monopólios estavam atrás de mão-de-obra barata, matérias-primas (cacau, minérios, algodão, etc.) e mercado consumidor – tudo isso encontraria em outros países de economia mais frágil.
Países europeus começaram a explorar a economia na Ásia e África. Os EUA exploraram a América Latina e o Japão avançou sobre a Ásia.
Esses países competiam para dominar mais colônias. Para ampliar mais áreas de exploração capitalista, esses países entraram em conflito armado, que foi a 1º Guerra.

Disputa entre Inglaterra e Alemanha
O capitalismo inglês era o mais desenvolvido. No começo do séc. XX a indústria alemã cresceu. Produzia-se mais que a Inglaterra, com mais qualidade e produtos mais baratos – muitos mercados preferiram as mercadorias alemãs, reduzindo o mercado inglês.
Os empresários ingleses queriam acabar com a Alemanha e os empresários alemães desejavam a queda da Inglaterra. A população foi convencida da necessidade de uma guerra.
A Alemanha era um país novo, nascido em 1871 após a guerra Franco-Prussiana. A Inglaterra não aceitava perder mercado para uma nação com uma história política tão recente.

Revanchismo francês
Devido derrota na guerra Franco-Prussiana em 1871, a França teve que ceder o território da Alsácia-Lorena para a Alemanha, região rica em carvão e ferro. Os franceses desejavam revanche, para tomar de novo a região para si.
Essa revanche era ensinada até mesmo nas escolas públicas francesas. Os franceses não aceitavam que tal território ficasse em mãos germânicas.

Alemanha e Itália
Alemanha e Itália surgiram como Estados Nacionais só em 1871. A Inglaterra e França já tinham colônias na África e Ásia. Por isso, desejavam também ter colônias para fortalecer sua economia. A Itália tem um território pequeno e somente a exploração de outras economias poderiam alavancar a disputa econômica com os países ricos.

Disputa dos Bálcãs
A Áustria era um império que reunia vários povos eslavos como: sérvios, tchecos, eslovacos, eslovenos, croatas e poloneses; e não-eslavos como os húngaros – formavam o Império Austro-Húngaro.
Esses povos eslavos sentiam oprimidos pelo Império e queriam independência. Rússia também era um império, mas de origem eslava. Queriam controlar todos os povos eslavos.
Assim, a Rússia promoveu o PAN-ESLAVISMO, que tinha o objetivo de reunir todos os povos eslavos.

Início da 1º Guerra
O governo da Sérvia incentivava a luta contra o Império Austro-Húngaro.
As potencias mundiais abasteciam de armamentos se preparando para conflitos.
A Bósnia era dominada pelo Império Austro-Húngaro, mas também queria independência.
O arquiduque austríaco Francisco Ferdinando visitou Sarajevo, capital da Bósnia, para demonstrar seu domínio – assim foi assassinado por um grupo libertador.
A Áustria culpou a Sérvia pelo atentado e lhe declarou guerra. Em resposta, a Rússia declarou guerra à Áustria. A Alemanha ficou do lado da Áustria. A França e a Inglaterra aproveitaram e declararam guerra a Alemanha.

Alianças Militares
Tríplice Entente: França, Inglaterra e Rússia. A Rússia queria acabar com a Áustria por causa do pan-eslavismo e porque Alemanha queria construir uma estrada de ferro de Berlim a Bagdá (Iraque) para transportar petróleo. Romênia apoiou este grupo.
Tríplice Aliança: Alemanha, Itália e Áustria. Itália depois passou para o lado da Entente. Bulgária e Turquia ficaram neste grupo.
O Japão tomou algumas colônias da Alemanha, mas depois se retirou do conflito.

EUA
Os EUA vendiam alimentos, combustível e máquinas para a França e Inglaterra.
Se a Entente perdesse a guerra, França e Inglaterra ficariam sem dinheiro para pagar os EUA.
Em 1917 Rússia saiu da guerra por causa da Revolução Socialista. No mesmo ano, os EUA entraram na guerra e ajudaram a Entente a vencer.

Conseqüências da guerra
Houve 9 milhões de mortes nas trincheiras da guerra. Claro, todo número exposto nos livros, quando se trata de guerra é relativo.
EUA tornam o país mais rico do mundo. Afinal, não houve conflitos em seu território e ainda tinha dinheiro para receber da Inglaterra e França.
O Império Austro-Húngaro se fragmentou, surgindo: Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e Iugoslávia.
Com o TRATADO DE VERSALHES, os vencedores impuseram penalidades à Alemanha, que perdeu suas colônias, teve que pagar indenização aos vencedores e não poderia ter armamento pesado.
EM 1919 foi criada a LIGA DAS NAÇÕES, que era uma assembléia para pacificar conflitos.

“Quando elefantes brigam, o capim é esmagado.” (Provérbio cambojano)


Prof. Yuri Almeida

domingo, 24 de abril de 2011

Terra, fonte da vida e a questão agrária

Os movimentos atuais acerca da ocupação de terras se dão pelo valor da produção alimentar que a terra propicia. Assim as desigualdades impostas por um sistema desenfreado coloca as classes menos favorecidas em condições precárias, onde o desemprego, a fome, as moléstias e as mazelas do crime social permeiam a formação de indivíduos socialmente excluídos da classe dominante. A exclusão por sua vez é resultado de um processo discriminatório comumente ligado às relações de dominação e exploração oriundas da desigualdade social. Neste aspecto, as pessoas que não tem acesso à terra e seguem pela linha da desigualdade social, procuram amenizar sua tempestiva exclusão através do que é chamado de invasão de terras.

O MST, expressão máxima dessa classe no Brasil, tem lutado pela reforma agrária a fim de amenizar os problemas sociais que o não acesso a terra propicia as pessoas dependentes desta, uma vez que a terra é fonte de vida e inserção social. O fato é delicado ao belo gosto da elite agrária de nosso país e de extrema urgência à necessidade da classe dos sem terras. Diante deste ponto, percebe-se o valor social que a terra possui e, no entanto a ocupação de terras que não estão cumprindo com seu papel social permitiria um grande avanço nos rumos sociais e consequentemente econômicos de nosso país.


A ocupação de terras se sobrepõe ao direito de propriedade uma vez que as terras não são totalmente trabalhadas e exploradas. Mas essa questão é histórica e merece ser diagnosticada.


As primeiras distribuições de terras no Brasil se deram pela formação da grande propriedade, quase que no mesmo sistema de suserania e vassalagem do período medieval, ainda um resquício para a época. A divisão em Capitanias Hereditárias foi a base de toda exclusão que o Brasil ainda vive. O sistema se aqueceu ainda mais com o sistema denominado de plantation onde a produção da colônia se baseava na grande propriedade, na mão de obra escrava e na produção de um único produto para exportação, neste caso a cana de açúcar. Tal fato produziu uma sociedade estratificada, onde o acesso a terra se dava pelos privilégios de uma minoria, enraizando aí todo um processo de exclusão.


Outro fato importante e já no Brasil independente, especificamente em 1850, a promulgação da chamada Lei de Terras acirrou ainda mais o acesso a terra das classes menos favorecidas. Amedrontados com a pressão inglesa pela abolição da escravidão e temendo a formação de pequenos agricultores, sejam eles ex-escravos, trabalhadores livres e ou imigrantes, a posse de terra foi então regulamentada, onde a partir de então as terras devolutas passariam à tutela do Estado e somente se tornaria dono de terras quem as comprassem mediante pagamento a vista. Uma política de exclusão, pois será que algum escravo liberto ou forro teria dinheiro para adquirir um lote de terras? Provavelmente difícil.


Com a proclamação da República em 1889 nada desconfigura e ou reformula a questão agrária no Brasil. Seria simplesmente pelo fato de que quem governava o Brasil eram os barões do café?


No dia primeiro de abril de 1964 o Brasil entra em um verdadeiro regime militar, tudo porque o “comunista” Jango, até então Presidente do Brasil propôs as chamadas Reformas de Base, onde uma das questões era a reforma agrária, algo tão periculoso para a elite da época que derrubaram o Presidente de um país até então democrático. Isso sim que é democracia.


Prof.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Mercantilismo

O Absolutismo é formado na Europa por volta dos sec. XV e XVI. Os reis absolutistas precisavam de dinheiro para pagar soldados e funcionários públicos, adquirir armas e navios, construir estradas e manter o luxo da corte. Naquele período um Estado forte era sinônimo de um Estado com bom exército, pois uma simples guerra colocaria a perder os interesses tanto da nobreza quanto da burguesia local.

Os Estados Nacionais conseguiam dinheiro cobrando impostos. Camponeses e burgueses pagavam impostos enquanto os nobres e o clero eram isentos. Quem não pagasse imposto poderia ser preso e até morto, o Estado era absolutista.

Quanto mais rico era o país mais rico era o Estado e mais forte seria o exército. Em conseqüência, o luxo do rei e de sua corte seria mais visível. Para manter o Estado rico, os reis passaram a controlar e intervir na economia, criando leis e regras econômicas. Determinavam o que os burgueses poderiam comerciar e produzir. Intervir na economia era uma maneira do rei vigiar e dirigir a economia.

Assim sendo, mercantilismo é o conjunto de regras e leis econômicas criados pelos Estados Absolutistas.

Acumulação de metais

Acumulando ouro e prata os Estados Nacionais enriqueciam. Naquele período dinheiro era ouro e prata. O papel moeda não era utilizado como nos dias de hoje.

O problema é que as minas de ouro e prata da Europa estavam esgotadas. Para acumular dinheiro então, investiram no mercado internacional. Assim, quanto mais exportava mais o Estado adquiria riqueza.

Os Estados Nacionais procuravam exportar mais do que importar para manter a balança comercial favorável. Tal regra ainda é seguida nos dias de hoje.

Protecionismo Alfandegário

Para impedir importações o governo cobrava taxas alfandegárias que são impostos sobre produtos importados. Isso encarece a mercadoria de fora e fortalece a economia local do país.

As taxas alfandegárias protegiam as manufaturas nacionais, sem dizer que nada adiantaria o Estado exportar exageradamente e importar no mesmo rítmo.

Essa política econômica oriunda do mercantilismo é muito comum até hoje na economia capitalista.

Monopólios

Para controlar o lucro da burguesia e incentivar seu crescimento, os reis concediam monopólios.

Monopólio é exclusividade de produção e de comércio, ou seja, os reis concediam a alguns burgueses a exclusividade de produzir e comerciar produtos específicos. Assim, facilitava ao rei controlar o que estava sendo produzido, em que escala, qual a quantidade, qualidade, preço, quem produz, como e também a cobrança dos impostos.

Expansão Marítima

Nos sé. XV e XVI a pimenta era muito apreciada na Europa. Investir nesse negócio poderia ser algo muito lucrativo para os Estados Absolutistas.

Assim, os reis incentivaram tal comércio exterior. Os burgueses compravam pimenta nas Índias e vendiam em toda Europa, com alto lucro.

Esse comércio fortalecia a burguesia e os Estados europeus como também incentivou a expansão do Europeu por novas terras via marítima.

Mercantilismo e colonização da América

A Expansão marítima fez os europeus encontrarem a América, nova fonte de lucro para os reis. Espanhóis e portugueses colonizaram regiões da América para explorá-las.

Esses países europeus que dominaram eram chamados metrópoles. As regiões da América que eram dominadas eram chamadas colônias.

As metrópoles exerciam um monopólio colonial, que era uma exclusividade de exploração. O Brasil era colônia de Portugal. Assim, Portugal tinha exclusividade em explorar como quisesse o Brasil. O mesmo aconteceu com o resto da América Latina em relação a Espanha.

Muitos Estados Nacionais, como Portugal, Espanha, Inglaterra e França lucraram muito com a política mercantilista de colonização.

Corsários e Piratas

Eram bandidos do mar. Roubavam navios e enriqueciam a base da pilhagem. Os reis absolutistas, principalmente da Inglaterra e França, descobriram que a pirataria era um negócio lucrativo, que prejudicava os inimigos.

No caso desses países, o monopólio colonial imposto pela Espanha e Portugal os excluía da exploração da América Latina.

Conclusão

A acumulação de capital, que iniciou com práticas burguesas e se estendeu ao Estado, deu início ao mercantilismo, que podemos considerar ser o pai do capitalismo.

Prof. Yuri Almeida

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher

O dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher. Aprendemos que essa foi a data de um incêndio numa fábrica têxtil em Nova York em 1857 que matou cerca de 120 mulheres trabalhadoras. De acordo com essa informação, o incêndio foi provocado porque reivindicavam melhorias trabalhistas.

Não obstante, há provas de que esse incêndio acontecera na realidade em 25 de março de 1911 e não fora provocado como punição a protestos. Anterior a essa data já se comemorava um Dia Internacional da Mulher, mas sem uma data fixa, sendo que tal data fora proposta no 2º Congresso internacional de Mulheres Socialistas, em 1910.

Por que um congresso socialista escolheria o dia 08 de março como o Dia Internacional da Mulher?
No início do séc. XX a Rússia ainda era governada pelos tzares. No séc. XIII a dinastia RuriKovitch iniciou esse período de governos absolutistas. O Tzar Ivan IV, o Terrível, foi o último dessa dinastia, já no séc. XVI e inaugurador da dinastia de Rurik, que vai até o séc. XVII, quando inicia a última dinastia dos Tzares, a conhecida Dinastia Romanov. Essa última é interrompida pela Revolução Russa, em 1917.


A Rússia era um território gigantesco, gelado, atrasado econômica e socialmente. Em 1905 o país teve sérios prejuízos com uma guerra com o Japão. Em 1914, o país sofreu com a 1º Guerra Mundial. Além do problema da guerra, a fome – agricultura precária – falta de moradia descente, falta de saneamento básico, desemprego, educação formal praticamente inexistente e inúmeros problemas faziam da Rússia um país péssimo para se viver.
Para termos uma idéia, os camponeses amarravam casca de árvores nos pés para se proteger do gelo. A mortalidade infantil era altíssima, o analfabetismo era quase total, o déficit habitacional era de toda população pobre, a industrialização tardia e atrasada, quase não podemos falar de uma burguesia russa, prostituição e criminalidade alta e a miserabilidade social era aparente e não combatida, como também o desemprego e ausência de legislação trabalhista. Não havia poderes constituídos no país e a censura cerceava a opinião da imprensa.

Diante de tantos problemas sociais, guerra e falta de democracia política, no dia 08 de março de 1917, milhares de mulheres em Petrogrado, saíram às ruas protestando contra a ditadura e falta de políticas públicas. Reivindicavam em um coro: “Pão, Paz e Terra”. O que desejavam era que os problemas de racionamento de alimentos e preços altos fossem resolvidos, que a Rússia saísse da 1º Guerra e que fosse feita uma reforma agrária no país, visto que, tal imensidão de terras estava nas mãos de uma nobreza improdutiva.

Como acontecera em 1905, no Domingo Sangrento, o Tzar Nicolau II (Nikolái Alieksándrovich Románov; Николáй Алексáндрович Ромáнов) ordenou que os cassacos (polícia) atirassem na multidão. Contudo, para surpresa de Nicolau II, os cossacos deixaram as armas e se juntaram a população, restando ao tzar a renúncia imediata.

Estava encerrado o período dos tzares, a história de imperadores absolutistas estava enterrada no passado daquele país. A Duma (parlamento) elegeu um governo provisório, Kerenski, que acabou com a censura e transitou o país para uma democracia. Ainda em 1917, Lênin chegou ao poder, transformando a Rússia em URSS. Posteriormente, Stalin transforma a URSS numa potência econômica, militar e social.

8 de março de 1917, a força do protesto de mulheres russas muda a história de um país miserável. Não apenas a política daquele país mudou, mas em decorrência de tal, a economia e o social passa por grandes mudanças estruturais.


Prof. Yuri Almeida

quinta-feira, 3 de março de 2011

Preconceito contra ateístas é crime no Brasil, como a qualquer cidadão que manifeste alguma crença ou ideologia.
Constituição da República Federativa do Brasil
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto
e a suas liturgias;
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos
imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cruzadas

Por volta do séc. IX o Islamismo já estava presente no Oriente Médio, norte da África e península Ibérica. Um pouco mais tarde, os balcãs e África subsaariana conheceram as idéais do profeta Maomé.
No séc. XI Jerusalém já estava dominada pelos muçulmanos. Para dominar Jerusalém, os europeus fizeram as CRUZADAS, que eram expedições militares contra os muçulmanos.
A Igreja e a nobreza apoiaram as cruzadas que mataram muitos árabes. Não podemos esquecer que a riqueza da nobreza está na terra e as cruzadas era uma oportunidade de aumentar os feudos de europeus e de expansão para o cristianismo.
A primeira cruzada foi de 1096 a 1099. O papa Urbano II (responsavél pelo estabelecimento da cúria romana na forma atual) e o monge francês Pedro, o eremita, foram os incentivadores dessa cruzada. O alvo era simples - libertar Jerusalém do poder turco. Conseguiram capturar Nicéia, Antioquia, Edessa e chegaram a Jerusalém. Já nessa primeira cruzada conseguiram estabelecer alguns reinos feudais, uma prova do interesse geopolítico das cruzadas. Participaram desse conflito Válter Sans Avoir, Gottschalk, Raimundo de Tolosa, Godofredo, Tancredo e Roberto da Normandia.
A segunda cruzada foi em 1147-48 e foi motivada pelo abade Bernardo de Claraval e pelo papa Eugênio III (sua família pertencia a nobreza italiana). Também participaram dessa Conrado III (fundador da dinastia Hohenstaufen de imperadores do Sacro Império) e Luís VII (rei dos francos da dinsatia dos capetianos) . Essa cruzada tinha a intenção de retomar Edessa dos turcos. Uma terra dominada pelos turcos significava uma área em que o velho feudalismo europeu fica sem atuação. Claro, a alegação oficial para atacar Edessa e Damasco era religiosa, visto que o islamismo era condenado pelo ceio do cristianismo. Interessante que a desconfiança entre os cruzados ocidentais e os guias orientais levou o exército cruzado não apenas a derrocada, mas a sua dizimação.
De 1189 a 1192 houve uma terceira cruzada, motivada pelo papa Alexandre III, que teve apoio do imperador do Império Romano-Germânico Frederico de Barbaroxa, do rei dos francos Felipe Augusto (um dos monarcas mais poderosos da Idade Média) e do rei da Inglaterra e duque da Normandia Ricardo I. A Igreja buscava aliados nos pequenos reinos bárbaros cristãos para conseguir aumentar seu domínio no Oriente. O objetivo oficial dessa cruzada era retomar Jerusalém dos sarracenos e de Saladino, que era um chefe militar curdo muçulmano e que se tornou sultão do Egito a Síria. Seu domínio chegou ainda ao iraque e Iêmem. O fim dessa cruzada foi trágico para os cruzados, o imperador Frederico de Barbaroxa morreu afogado, o rei Felipe Augusto voltou derrotado e Ricardo I capturou as cidades de Jope e Acre e fez um acordo com Saladino . Contudo, foi preso na Áustria enquanto retornava. Não conseguiram seu objetivo.
A quarta cruzada foi em 1200-04 organizada pelo papa Inocêncio III. Ele teve apoio de Thibaut de Champagne, Luís de Blois, Balduíno de Flandres, Simão de Montfort (nobre franco-normando) e Henrique Dandolo. Queriam enfraquecer o poder sarraceno invadindo o Egito. A cidade cristã de Zara (atual Zadar, na Croácia) foi saqueada para pagar os transportes contratados em Veneza. Por isso os cruzados foram excomungados. Muitas cidade muçulmanas eram saqueadas nas Cruzadas e nunca a Igreja se posicionou contra, pelo contrário, havia o entendimento de que numa guerra tal é suportável. A cidade de Constantinopla foi tomada pelos cruzados, que a tornaram capital do Império Latino. Esse Estado Cruzado durou de 1204 a 1261, quando voltou a ser Império Bizantino.
Em 1212 houve a estranha Cruzada das Crianças, motivada pelo desconhecido Nicolau Estêvão. A Idade Média tinha sua mitologia muita enraizada na sociedade. Queriam conquistar Jerusalém de maneira sobrenatural, pelos "puros de coração". Criam que a conquista de Jerusalém não se deu porque até então tinha entre os cruzados "homens pecaminosos". A conquista da "terra santa" não se daria pela força dos braços e sim pela fé. O fim de um disparate desse foi claro - a maioria das crianças foram afogadas no mar, vendidas como escravas ou mortas.
A quinta cruzada ocorreu de 1219 a 1221 e foi motivada pelo papa Honório III e teve apoio incondicional de Guilherme da Holanda e João de Brienne. Este último ocupou o trono de Jerusalém entre 1210 e 1225 e chegou a ser co-imperador com Balduíno II do Império Latino. Tinham o objetivo de enfraquecer o poder sarraceno e invadir o Egito. Desta vez os cruzados tiveram sucesso na coquista de Damieta, no Egito, mas logo depois, a perderam novamente.
A sexta cruzada ocorreu em 1229 e desta vez não tinha o incentivo oficial do papado, mas o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Frederico II de Hohenstauffen esteve a frente dessa nova tentativa de reconquistar Jerusalém. No final, aconteceu algo interessante, os cruzados fizeram um acordo com o sultão que passou o controle de Jerusalém para Frederico. Logicamente ele foi excomungado da Igreja, mas esse fato prova mais uma vez que a questão religiosa não era o principal motivo das cruzadas e sim a sede por terra, visto que na Idade Média a posse de terra era algo que valia o título de nobreza.
A sétima cruzada ocorreu em 1248 e teve o rei da França Luís IX como participante notável. Queriam libertar Jerusalém invadindo a "terra santa" pelo Egito. Era uma manobra muito arriscada e foram derrotados no Egito mesmo.
Em 1270 o rei Luís IX retoma a batalha numa oitava cruzada. Partiu para o Egito com o objetivo de tentar converter o emir e o sultão de Túnis. Foi recebido com armas e mal pode combater, pois os cruzados foram acometidos por uma peste que assolava a região. Luís IX morreu e seu filho, Filipe, o Audaz, firmou um acordo de paz e retornou para a Europa, onde foi coroado rei.
Em 1271-72 o príncipe Eduardo da Inglaterra combateu o sultão Baybars do Egito, que domininava Jerusalém. Após trégua, Baybars tentou assassiná-lo, mas antes do contra-ataque do príncipe, seu pai Henrique III faleceu e Eduardo retornou a Inglaterra para assumir o trono e dando fim as cruzadas genuínas.
Uma décima e décima primeira cruzada pode ter sido realizada por crianças, mas há poucos registros sobre tal.
No séc. XV o papa Pio II pregava as cruzadas contra os turcos infiéis. Mas ele mesmo foi autor da bula Execrabilis em 1464 que assinalou o fim desse movimento.
As cruzadas resultaram no aparecimento de novas cidades, fomentou a importância da cavalaria no setor bélico. O contato dos europeus com os muçulmanos fez eles conhecerem a prática do comércio, o que ajudou no crescimento da burguesia. No mesmo período inicia a decadência do sistema feudal e surgimento dos Estados Nacionais monárquicos. É bom salientar que o feudalismo só vem a cair com as revoluções burguesas no sec. XVIII.
Fim da história - morreu muita gente, a Igreja continuou com seu domínio no Ocidente, o Islamismo continuou seu domínio no Oriente e Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos.

Prof. Yuri Almeida

Referências Bibliográficas

CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, V. 01. 1997.

GONZALES, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo: a era dos altos ideias. São Paulo: Vida Nova. V. 04. 1980.

PERNOUD, Régine. O mito da Idade Média. Lisboa: Editions du Seuil. 1978.

WALTON, Robert C. História da Igreja em quadros. São Paulo: Vida. 2000.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Descendentes e ex-escravos ricos que voltaram para a Africa

De praxe pensamos que os descendentes dos escravos eram pobres. No final do Séc. XIX, muitos escravos alforriados voltaram para a África e até hoje são chamados de comunidades brasileiras. Muitos se enriqueceram e tornaram-se as elites africanas, principalmente na cidade de Lagos.
Abaixo fotos tiradas no Brasil, Nigéria e Benin, dessa interessante história desconhecida de muitos - ex-escravos e descendentes que se tornaram ricos comerciantes, médicos, advogados, políticos, donos de muitas propriedades.
Essa pintura é de Debret (1839). Retrata o oficial de barbeiro no Brasil, que quase sempre era negro ou mulato. O europeu chocava com tal, mas o habitante do Rio de Janeiro utilizava vários trabalhos realizados por escravos. O barbeiro podia ser ao mesmo tempo, um cabeleireiro, um cirurgião que utiliza bisturi e um destro aplicador de sanguessugas, técnica bem utilizada como anestesia. Segundo os viajantes Th. Lindley e Wetherell, na Bahia, os barbeiros eram de músicos a arrancadores de dentes.


A esquerda, escrava doméstica. Artur Gomes Leal com sua ama-de-leite Mônica, 1860. A direita, escravo alforriado. Carte visite (Coleção Francisco Rodrigues, Fundação joaquim Nabuco, Recife).

Escrava de ganho, vendendo frutas no Brasil, cerca de 1860. (Museu Imperial, Petrópolis)

Crioula, 1885. O termo crioulo, nesse caso, é denominação principalmente linguística africana, mas também para denominar grupos étnicos em várias regiões da África. A direita, Iorubá (grupo étnico da África Ocidental, sendo o segundo maior grupo da Nigéria) com escoriações características, fotografado em Salvador em 1885. (Coleção Tempostal, Salvador).

Escravos do eito numa fazenda fluminense por volta de 1885 (Museu Imperial, Petrópolis).

Costureiras brasileiras em Abeokutá (capital do estado de Ogun, na Nigéria), sec. XIX (Société des Missions Africaines, Roma). Com certeza retornaram a terra África.

Os homens mais ricos da comunidade brasileira, ou seja, ex-escravos do Brasil que voltaram a África, mandavam seus filhos para estudar na Europa ou na Bahia. Assim se formaram os primeiros médicos e advogados da Nigéria, como Plácido e Honório Assumpção. As carreiras de funcionário do governo colonial inglês e em empresas estrangeiras atraíam muito dos chamados "brazilian descendants". Os irmãos acima adotaram o nome iorubá Alakija. Parte da família voltou para a Bahia no começo do sec. XX. (Documento da família fotografado por Pierre Verger).

Acima, capela de bambu, primeira igreja Católica de Lagos (cidade portuguesa no distrito de Faro), 1872. Sentado entre dois missionários francesesm de chapéu, está o padre Antônio, ex-escravo do prior do Carmo do Salvador. Abaixo, sagração do católico de Lagos, Monsenhor Lang, em 1902. (Société des Missions Africaines, Roma).

Decoração dos festejos da abolição: sob os retratos de D. Pedro II e da Rainha Vitória, vêem-se as armas do Império do Brasil, ladeadas pelas bandeiras inglesa e brasileira. (Société des Missions Africaines, Roma).

Acima, comitê brasileiro dos festejos da abolição, reunindo os membros mais representativos da elite brasileira em Lagos. Abaixo, atores da peça "The Mysterious Ring", drama em cinco atos, apresentada em 5 de outubro de 1888, como parte dos festejos lagosianos pela Abolição da Escravatura. Os brasileiros em Lagos eram grandes aficionados do teatro clássico e da música lírica (Société des Missions Africaines, Roma).

Família brasileira em Lagos. (Société des Missions Africaines, Roma).

Mulheres da comunidade brasileira de Lagos. No brasil no sec. XIX, as africanas admiravam seguir a moda européia.
Grupo de mulheres iorubá no final do sec. XIX, com roupas tradicionais, "adirés" e panos da costa. (Société des Missions Africaines, Roma)

A esquerda, Hypolito dos Reis, nascido na África, filho do brasileiro Papai Muda Lugar (que devia seu nome ao fato de ser mestre de dança em Lagos). Hypolito acaba indo para a Bahia. A direita, membro da família Martins (documento da família).


A esquerda, Porfirio Maxwell Assumpção Alakija, filho de Marcolino. Nascido na África, instalou-se na Bahia, onde foi professor de inglês e onde colaborou com Nina Rodrigues. Foto feita em Lagos. A direita, Plácido Assumpção (Sir. Adeyemo Alakija). Nascido em Aneokutá, em 1884, foi educado em escola católica em lago, seguindo depois para a Inglaterra, onde se formou em Direito criminal. Foi um dos poucos advogados da comunidade brasileira a ocupar cargo influente nos quadros do governo colonial. Teve participação significativa na vida política de Lagos. Convertido ao anglicanismo, foi dirigente da sociedade secreta Reformed Ogboni, antiga sociedade iorubá, causa de séries divergências da Igreja Anglicana. Foto tirada na Bahia, por volta de 1911. (Documentos da família, fotografados por Pierre Verger). Interressante como, poucos anos após a abolição, um negro consegue uma ascensão social tão expressiva.

Acima, família Suberu, em Ondo (maior cidade do Estado de Ondo, na Nigéria). Abaixo, famíliaFragoso. Ambas, ex-escravas no Brasil. (Documento da família)

Sentado, Lucio Mendes da Costa. Foi escravo na Bahia, voltou para Lagos e depois retornou a Bahia, morrendo em Cachoeira. Seu filho, Cypriano Lucio Mendes, de pé, comerciava "carne do sertão" (charque) importada do Brasil. Rico, consta que possuía cinquenta casas e que teria perdido a fortuna em um naufrágio (documentos da família).
Família Mendes, no Rio de Janeiro. Parte dessa família está em Lagos, parte em Cachoeira, na Bahia, e parte no Rio de Janeiro. (Foto cedida pela família em Lagos. A mesma foto foi encontrada em Cachoeira)

Cosmos Anthonio, nascido em Lagos em 1889, de mãe baiana, fotografado aos 76 anos, em Oshogbo (capital e a maior cidade do Estado de Osun, na Nigéria). Sua avó materna, Felicidade Maria de Sant'Anna, era uma princesa Ijexá, retornada do cativeiro no Brasil e que comerciava com a Bahia. A direita, Dominga Ariike Anthonio, esposa de Cosmos e brasileira de Lagos.

A esquerda, João Esan da rocha em foto anterior a 1870, tirada no Brasil. Vendido como escravo aos 10 anos, comprou sua alforria aos 30 anos. Voltou para Lagos com sua mulher e seu filho e tornou um rico comerciante (Coleção família Rocha-Thomas). A direita, Louisa Angélica Nogueira da Rocha, em foto de cerca de 1870, mulher de João Esan, com seu filho Cândido da Rocha. Cândido tornou-se um grande comerciante de ouro. Tinha cavalos de corrida e luxuosas carruagens. Seu irmão, Moysés da rocha, estudou medicina em Edimburgo e especializou-se em doenças tropicais. Foi um fecundo jornalista, estreitamente ligado a Igreja Católica (foto Pierre Verger, coleção família Rocha-Thomas).

Família de João Angelo Campos, comerciante e uma das maiores fortunas de Lagos no sec. XIX. Teve grande participação na vida política e cultural da cidade. (Société des Missions Africaines, Roma).

Acima, João Angelo Campos, em foto tirada na Bahia, em casa de sua afilhada Ana Cardoso. Abaixo, duas casas de propriedade da família. A da esquerda, construída em 1897, pertenceu a Romão Campos, comerciante que deu nome a Campos Square, centro do brairro brasileiro em Lagos. (Société des Missions Africaines, Roma).




As fotos e informações acima foram tiradas do livro:
Da senzala ao sobrado: arquitetura brasileira na Nigéria e na república popular do Benin/Mariano Carneiro da Cunha, Ed. USP.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Escravo na zona rural no século XIX

A vida do escravo na fazenda era bem mais difícil do que a do escravo urbano, mesmo no período do processo de abolição. Segundo Emília Viotti da Costa, em sua obra Da Senzala à Colônia, o escravo rural era submetido à uma dominação ainda mais repressora que o escravo urbano.

“O escravo urbano gozava inegavelmente de uma situação superior a do parceiro do campo. As possibilidades que tinha de conseguir a alforria eram maiores, melhores em geral suas condições de saúde, e mais suave o tratamento que recebia, pois os olhos da lei andavam mais perto” (1982: 289)

A vida do escravo na zona rural era bem diferente. No campo o senhor tinha plena autoridade, este que representava a Igreja, a justiça, a força política e militar.

Nas atividades da fazenda o escravo trabalhava uma média de 15 a 18 horas diária. A rotina dos escravos era esta: as 4 ou 5 horas, antes mesmo do sol nascer, se apresentavam ao feitor. Divididos em grupos iam para os cafezais. As 09 ou às 10 horas passavam para almoço, as cozinheiras preparavam a refeição no próprio local, em grandes caldeirões. Meia hora depois recomeçava o serviço. À uma hora interrompiam o serviço para o café com rapadura. Às 4 horas jantavam e o trabalho prosseguia até o escurecer, quando novamente se apresentavam ao feitor. De volta do campo, dedicavam aos serviços no terreiro nas casas de engenho, no paiol e no preparo dos alimentos para o dia seguinte. As 10 ou 11 horas após uma ceia, recolhiam às senzalas.

Geralmente as senzalas eram construções de pau-a-pique, cobertas de sabe, sem janelas, apenas aberturas de 30 e 40 centímetros junto à cobertura com uma única porta, localizadas próximas à residência dos fazendeiros para poder se fiscalizar melhor os escravos. No corredor das senzalas tinham fogões primitivos onde os negros preparavam alguns pratos simples. Atrás da senzala, ficavam as privadas ou barricas com água que eram diariamente esvaziadas e limpas. Homens e mulheres dormiam em casas separadas, as crianças juntamente com as mães. Em algumas fazendas tinham pequenas cabanas ao lado das senzalas, destinadas aos casais.

Apenas nos domingos e feriados a rotina era alterada. Os escravos trabalhavam pela manhã cortando lenha, limpando córregos, concertando cercas, repassando estradas. À tarde tinham folga. Em certas fazendas alguns escravos recebiam um lote de terra para cultivar. Acreditava o senhor que isto seria uma forma de manter a segurança, pois assim mantinha o escravo ocupado, evitando concentrações. Para evitar tais concentrações, muitos fazendeiros substituíam a folga do domingo por um dia da semana.

Existiam senhores muito devotos que impediam qualquer trabalho aos domingos e dias santificados. Dia de repouso era dia de festa, recebiam roupas limpas, o vestuário era simples. Os homens usavam calça e camisa de algodão grosseiro. Na maioria das fazendas, as roupas eram renovadas apenas uma vez por ano. Geralmente eram trocadas aos domingos e lavadas uma vez por semana. Expostas ao sol e a chuva, as lavagens semanais estragavam as roupas. Negros esfarrapados, mesmo nas melhores fazendas, escandalizavam os viajantes. As escravas utilizadas nos serviços domésticos eram mais bem vestidas.

O pouco dinheiro que o escravo conseguia acumular em horas de trabalho domingueiro gastava em fumo, bebida, bugigangas e roupas. Nas vendas de beira de estrada, a pretexto de se vender cachaça às populações rurais, acobertavam o roubo e o contrabando. Os vendedores agiam muitas vezes como receptores. Galinhas, porcos, objetos de prata, café eram desviados das fazendas.

As posturas municipais tentavam em vão acabar com estes abusos. Uma das leis dizia que, todo aquele que comprasse de escravos café, objetos de prata, ouro brilhantes, ou qualquer objeto de casa, sem ordem por escrito do seu senhor, seria multado em 30$000 e encarcerado oito dias. Autorizava-se qualquer pessoa do povo a prender o escravo que encontrasse vendendo qualquer dos objetos mencionados, desde que testemunhado por duas pessoas.

As leis se repetiam, o que demonstrava sua ineficiência. A prática persistia. Um dos recursos utilizados pelos senhores para conter a população escrava era a religião, ela aparecia como mediadora entre senhor e escravo, o consolo do aflito, a esperança do desgraçado, obediência ao senhor, caracterizado como um pai a ser temido e respeitado. Alguns senhores exigiam que os escravos confessassem uma vez por ano. O pensamento da Igreja aconselhava moderação aos proprietários, e aos escravos aconselhava resignação e esperança na vida eterna, humildade e obediência, eis o catecismo do negro.

As fazendas dificilmente tinham um padre permanente. A maioria possuía oratórios e capelas, mas raramente recebiam a visita do capelão da paróquia. Em algumas fazendas, a prática limitava-se a uma reza vespertina. Em outras havia curtas preces de manhã e a noite. Em alguns casos reservava-se as orações para os domingos e dias santificados. Na obscura compreensão do cristianismo os escravos embrulhavam o latim como embrulhavam as práticas religiosas, e de tudo isso resultava um sincretismo muito complexo.

Haviam senhores que permitiam aos sábados e aos domingos e dias de festa, como casamentos e batizados, que escravos promovessem no terreiro os seus batuques. Muitas vezes, as autoridades viam nessas reuniões inofensivas uma séria ameaça à segurança pública e proibiram sua realização. A devoção aos santos, comum à população branca, encontrava-se também difundida entre os escravos.

Na senzala e na casa grande, religião materializava-se. Religião e superstição confundiam-se. A criança adoecia e diziam que era mal olhado, se a enxada quebrava diziam ser obra do saci, responsável também pela louça que quebrava ou pelas coisas que desapareciam. O feiticeiro tinha muito prestígio entre os escravos, por ser capaz de controlar as forças hostis e prestar benefícios à coletividade. Mas ao mesmo tempo aparecia como uma pessoa perigosa, vivia freqüentemente afastado dos demais, seus medicamentos eram feitos à base de ervas, pedras, excrementos, etc.

Nas fazendas raramente havia assistência médica, nos primeiros tempos, o isolamento em que viviam, a dificuldade dos meios de transportes, o escasso número de médicos disponíveis obrigaram o fazendeiro a transformar-se em médico prático. Os manuais de medicina gozavam de grande prestígio. Eram escritos livros com este propósito, como: “Tratamento das doenças dos negros”, “Dicionário de medicina doméstica popular”, “Guia médico do fazendeiro”.

As más condições higiênicas das senzalas, as penosas condições de trabalho sob o sol e a chuva, a precariedade do vestuário e da alimentação, os estragos causados pela cachaça minavam o corpo do escravo, contribuindo para o alto índice de mortalidade entre eles. A duração média da força de trabalho era de 15 anos e, nas fazendas sempre haviam escravos momentaneamente incapacitados, numa cifra de 10% a 15%. A mortalidade infantil chegava a atingir 88%. A Falta de higiene alimentar também consumia grande número de crianças. As mães eram obrigadas a iniciar cedo a desmama.

Os índices de mortalidade referentes à população negra permaneceram muito altos mesmo depois de abolida a escravidão. A grande mortalidade era provocada principalmente pela febre amarela e a malária. Durante o período da escravidão os maiores índices caíram sobre a população infantil. Durante a campanha abolicionista deram força de argumento aos altos índices de mortalidade.

A população escrava em vez de crescer, diminuiu no decurso do século XIX, como prova de alta mortalidade. As epidemias eram facilitadas pelas más condições higiênicas e pela promiscuidade em que viviam. As mais graves eram a cólera, a febre amarela e a varíola. A partir de 1885, houve numerosos casos da cólera-morbo. Nesse ano, assumiu tais proporções que, o governo preocupado, tomou medidas para sufocá-la, aconselhando aos fazendeiros o maior desvelo quanto à habitação, vestuário e tratamentos. As epidemias de varíola sucediam-se nas fazendas e nas cidades. No Rio de Janeiro foram numerosos os surtos de varíola e também na província de São Paulo. O “banzo” foi considerado o mal da escravidão, nascia das manifestações de nostalgia que suscitava o regime de escravidão, comparado à liberdade antiga se caracterizava entre os negros pela apatia e por mortal tristeza. Esses sintomas eram o da moléstia do sono.

Causa freqüente da mortalidade eram as picadas de animais venenosos, como aranhas e cobras. Descalços, na lida da lavoura, ficavam sujeitos a serem atacados por elas. Diversas verminoses diminuíam a capacidade de trabalho, produzindo cansaço e apatia. Mas também eram graves os numerosos casos de tétano. Trabalhando nas zonas rurais, os escravo, muitas vezes, contaminavam-se com micróbio do tétano e morriam entre convulsões e enrijecimentos.

Numerosos eram os casos de lepra e retite gangrenosa. A maioria dos senhores alforriava os leprosos, assim como outros cuja moléstia não tinha cura. As queixas contra lázaros que vagavam pelas estradas e acampavam juntos às cidades, pondo em pânico a população, multiplicavam-se. De vários lugares, solicitavam-se da administração medidas que obrigassem os senhores a interná-los, bem como a construção de hospitais com essa finalidade.

A condição do escravo na zona rural foi consideravelmente inferior à condição dos negros na zona urbana, mesmo que na cidade também existissem abusos fora da lei, lei que já era perversa. Na fazenda a lei podia ser ainda mais desrespeitada uma que estava extremamente distante, quando não inexistente.

Referência Bibliográfica

COSTA, Emília Viotti. Da senzala à colônia. (2ª ed.) São Paulo, Ciências Humanas, 1982.


Por Prof. Diego dos Santos de Andrade

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Guerra dos Mascates 1710/11

Em 1630 os batavos invadiram o nordeste brasileiro. Nada mudou radicalmente na região, pois os “holandeses” estavam interessados no comércio do açúcar e não na sua produção ou nos engenhos.

O problema foi que, Recife, que até então era apenas um distrito de Olinda, passou a ser a capital da província, até 1654, quando os batavos saem do Brasil.

Olinda era uma cidade aonde permaneceu os latifundiários. Já em Recife, cresceu uma pequena burguesia portuguesa, chamados de mascates, e que a cada dia se enriqueciam mais.

Assim, Olinda se firmava como a cidade dos senhores de engenho e Recife como a cidade dos mascates – cidades rivais, uma espécie de rivalidade entre “nobreza” e “burguesia” aparentes, pois não podemos afirmar que no Brasil colônia havia uma nobreza e burguesia propriamente dita.

Devido o fato dos batavos produzirem açúcar em colônias das Antilhas, o preço do produto sofre queda no mercado internacional. Isso levou muitos senhores de engenho a contrair empréstimos dos mascates. A grosso modo, era o enriquecimento de uma pequena burguesia portuguesa as custas do empobrecimento de latifundiários brasileiros.

Para piorar a situação, esses “grandes senhores” também tinham problemas com o fisco. Para facilitar a cobrança, a Coroa vendia o direito de cobrança de impostos aos arrematadores, que pagavam, em muitos casos, a dívida com abatimento e depois lucrava com os juros dos devedores. Quem eram esses arrematadores? Os mascates.

A rivalidade ganha corpo e em 1710/11 acontece a Guerra dos Mascates. O poder econômico de Recife consegue instalar uma câmara municipal, que é uma espécie de prefeitura no período. Os senhores de terras pegam em armas, derrubam o pelourinho de Recife e chegam a ferir o governador de Pernambuco, que busca refúgio na Bahia.

Chiavenato salienta que a Guerra dos Mascates foi equivocadamente apresentada oficialmente como guerra nativista, erro grotesco, visto que os mascates eram na sua maioria, comerciantes portugueses.

Os mascates desejavam que a capital fosse definitivamente para Recife, afinal, aliar poder econômico com poder político é sacramentar o domínio. Já haviam mascates eleitos vereadores e até conseguiram aprovar leis que permitiam a execução judicial de senhores de engenho devedores.

Para preservar suas posses, a Guerra dos Mascates, era por parte dos latifundiários, única chance de reverter um quadro quase certo de falência da mal formada aristocracia olindense.

O latifundiário Bernardo Vieira de Melo chegou a propor que Olinda se tornasse uma república independente, mas para tal precisava de muitas coisas inatingíveis, afinal, não se proclama uma república apenas com desejo.

No final da história, os senhores de terras de Olinda perderam a guerra, contudo, permaneceram com suas posses. Na realidade, foi um acordo. Olinda desistiu da guerra em troca de não terem a execução de suas propriedades e engenhos e o perdão das dívidas.

Também , o capitão-mor deveria ficar seis meses em Olinda e seis meses em Recife. Porém, em 1827 Recife tornou definitivamente a capital da província.

Já o povo, continuou sendo povo. A Guerra dos Mascates foi um conflito por poder local, mais por poder político do que econômico. Não havia reivindicações sociais. Pobre continuou sendo pobre, escravo permaneceu escravo. Índios continuaram na mesma situação. Senhores de engenho permaneceram latifundiários e mascates continuaram com suas atividades.

Prof. Yuri Almeida




Leia "As lutas do povo brasileiro:
do descobrimento a Canudos"
de Júlio José Chiavenato, da Editora Polêmica.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Guerra dos Emboabas (1708-10)

No início do sec. XVIII, as terras brasileiras ainda não tinham donos legais, com registro em cartório. O dono de um pedaço de terra era quem chegasse primeiro.

Os bandeirantes paulistas entraram sertão adentro em busca de índios, para serem vendidos como escravos, e de riquezas, principalmente o ouro, que poderia mudar a sorte de homens sem muita perspectiva em São Vicente.

No final do sec. XVII os paulistas haviam descoberto ouro na região das minas, Vila Rica. Devido a isso, achavam que por direito eram donos da terra e da exploração, mesmo faltando comprovação jurídica sobre a posse de tal.

Quando a região das minas é descoberta, migra gente de todos os lados para tentar se enriquecer com a mineração aurífera. Portugueses, baianos e pernambucanos, conhecidos como emboabas (emboaba significa estrangeiro), reivindicavam o direito a exploração do ouro, afinal, a terra não tem dono. Inicia a Guerra dos Emboabas.

De um lado os paulistas, que tinham esse nome porque partiram de São Paulo (mas havia entre estes: lusitanos, homens brancos nascidos no Brasil e até filhos de portugueses com índias, os mamelucos) e de outro os emboabas.

A corrida pelo ouro não havia regras ou leis bem estabelecidas, somente a sede pela fortuna. Havia risco, inclusive de Portugal despovoar-se em decorrência da emigração. Por isso o governo aumenta impostos, dificulta a mineração e chega a suspender a exploração. Em 1702 o governador Silveira e Albuquerque tenta “trancar os caminhos” das minas, na linguagem da época”, cita Júlio José Chiavenato.

Mas na realidade, os emboabas não chegaram do nada reivindicando direito de exploração. Em 1664 foi estabelecido o quinto e dado o direito aos paulistas sobre a descoberta. Mas para impedir a mineração desenfreada e a sonegação, o governo mais que dobra os impostos. Assim, os paulistas abandonaram as minas. Nesse período apareceram os emboabas, que chegaram num momento de fome e desordem no sertão brasileiro.

O conflito iniciou quando um paulista em Pindamonhangaba matou um português porque ele se recusou a vender sua escrava. A guerra começa quando os emboabas cercam Sabará e incendeiam a aldeia, matando muitos. Havia mortes para todo o lado. Até a Igreja entrou no conflito, afinal, o que estava em jogo era ouro.

O governador dá razão aos paulistas, que tinham o apoio até mesmo de grupos indígenas. Chiavenato afirma que o governador apoiou os paulistas alegando que eles além de descobrirem as minas, são mestres em matar índios e são bons garimpeiros.

Houve religiosos que apoiavam lados opostos. Os freis Francisco de Meneses e Amaral Gurgel e Firmo apoiaram os emboabas e cometeram atos de extrema violência. Isso pode ter sido um dos motivos que fez o rei tentar expulsar os religiosos da região das minas.

A guerra se intensificou. Os emboabas eram maioria e venceram a guerra, com milhares de mortos na contabilidade. A historiografia oficial classifica a guerra de luta nativista.

A realidade da Guerra dos Emboabas era uma só, a luta por ouro numa terra sem leis. Não obstante, o governo português se conscientiza que precisa melhorar a administração na colônia, principalmente na região das minas. Assim, cria a Capitania das Minas do Ouro e passa a controlar a mineração mais de perto.

O motivo porque índios lutaram do lado de brancos, principalmente dos paulistas é desconhecido, por falta de documentos históricos.

Professor Yuri Almeida




Leia "As lutas do povo brasileiro:
do descobrimento a Canudos"
de Júlio José Chiavenato, da Editora Polêmica.