segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fernandes, Florestan


Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 22 de Julho de 1920, de família muito humilde do Brás. Sua mãe, Dona Maria Fernandes, era uma imigrante portuguesa, analfabeta e trabalhava como lavadeira. Sua madrinha, que era patroa de sua mãe, costumava chamá-lo de Vicente, pois julgava que Florestan,não era nome apropriado para uma criança pobre.

Devido às necessidades de sua família, Florestan começou a trabalhar aos seis anos de idade, onde desempenhou vários ofícios como: engraxate, auxiliar de marceneiro, auxiliar de barbeiro, alfaiate e balconista de bar. Como sua vida no trabalho estava exigindo que se dedicasse em período integral, aos nove anos de idade parou de estudar no terceiro ano do curso primário. Somente aos dezessete anos concluiu o antigo curso de madureza (atual supletivo), por insistência dos fregueses do Bar Bidu, na Rua Líbero Badaró, onde trabalhava como cozinheiro, pois achavam que Florestan era muito inteligente devido aos comentários sobre a política e a leitura da realidade que fazia.

Vendedor de produtos farmacêuticos, Florestan, aos dezoito anos de idade, ingressou na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. Neste momento, ele dizia que o Vicente começou a morrer e sobreveio o Florestan.

Obteve a licenciatura em 1943, ano em que O Estado de São Paulo publicou o seu primeiro artigo. Em 1944, casou-se com Myriam Rodrigues Fernandes, com quem teve seis filhos. Neste mesmo ano, tornou-se assistente do professor Fernando de Azevedo, na cátedra de sociologia II. Obteve o título de mestre em 1947 com a dissertação A organização social dos Tupinambá e concluiu o doutorado em 1951, com a tese A função social da guerra na sociedade Tupinambá, sob orientação do professor Fernando de Azevedo.

Nessas obras em que defendeu (por sinal, são muito respeitadas ainda hoje), Florestan constrói a estrutura da tribo Tupinambá, já desaparecida na época, por meio de documentos de viajantes. Concluído o doutorado, Florestan passou a livre docente da USP na cátedra de Sociologia I, e posteriormente, tornou-se professor titular.

Devido ao seu engajamento na Universidade, foi perseguido pela ditadura militar e foi cassado com base no Ato Institucional de nº 5, pediu exílio, em 1969, para o Canadá, onde assumiu um lugar de professor de Sociologia na Universidade de Toronto.

Aliando o rigor metodológico à pesquisa empírica, Florestan Fernandes funda a sociologia critica no Brasil. Inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social. Para Florestan, o pensamento se pensa todo o tempo, pois a reflexão crítica deve ser sobre o pensamento e o pensado.

Um pensamento importante de Florestan se deu por volta de 1969 em plena ditadura militar, com a transição da fase acadêmica-reformista para a política-revolucionária. O processo de consolidação do pensamento revolucionário foi destruído pelo AI-5, que coloca vários intelectuais para fora das universidades, inclusive Florestan, que passa a não reconhecer mais a universidade como um centro dinâmico das transformações.

Como bom marxista defendeu uma educação vinculada ao pensamento socialista. Para ele, a classe trabalhadora era a principal força revolucionária, e, portanto seus membros deveriam estar preparados, bem informados e conscientes de seu papel e isto seria uma responsabilidade da Educação. Portanto entendia a Educação como um fator de mudança social.

Dentro de seu pensamento marxista, o contínuo e crescente diálogo com as obras de Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Gramsci, entre outros, incorporou progressivamente o pensamento dialético, que fica evidenciado tanto na escolha dos temas quanto no tratamento dado a eles; criando desafios para os movimentos sociais e os partidos políticos comprometidos com as lutas de grupos e classes populares.

Na carreira política, ingressou no partido dos trabalhadores a convite do presidente do partido, Luis Inácio Lula da Silva, num momento de sua vida, onde o desencantamento com a Universidade já se fazia presente. Foi eleito deputado federal por dois mandatos.

Tendo a Educação se apresentado como tema de grande relevância para o professor Florestan, sua atuação em defesa do tema se constitui em algo memorável. Guiado pela inquietude em que o tema da Educação representava em seu projeto de sociedade, participou intensamente da Campanha em Defesa da Escola Pública, na criação do Fórum de defesa, no processo de construção da LDB, defendendo um projeto lei, democrático e tinha o apoio e a participação de diversas entidades sociais.

Com toda sua participação na Constituinte, conhecendo por dentro o parlamento, Florestan teceu críticas de que o parlamento servia para sustentar o conservadorismo imperialista, expressando as tensões entre passado autoritário e as perspectivas futuras, e que a constituição de 88 foi um processo inacabado, pois a própria conjuntura que desencadeou colocou a Constituição de um lado, e as organizações populares de outro.

Nos últimos anos de sua trajetória de militância Educacional, sofreu uma grande decepção com dois amigos que militavam com ele, dentro de uma tendência que defendia uma Educação com bases socialistas na ocasião da Campanha em Defesa da Escola Pública, Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro. Com este último travou diversos embates públicos até seus últimos dias de vida.

Faleceu em São Paulo no dia 10 de agosto de 1995, aos 75 anos de idade, vítima de embolia gasosa maciça (presença de bolhas de ar no sangue), seis dias após submeter-se a um transplante de fígado. Ele estava revisando os originais de seu último livro: A contestação necessária – retratos intelectuais de inconformistas e revolucionários, uma coletânea de biografias de amigos e heróis.

Florestan Fernandes, de engraxate a Professor catedrático, 75 anos de vida dedicada a luta contra desigualdade social. Intelectual orgânico, no sentido empregado por Gramsci, foi militante aguerrido na defesa da Escola Pública de Qualidade e com forte influência marxista, acreditou, lutou e defendeu a transformação social, atribuindo papel relevante aos trabalhadores a partir da consciência de classe e incluindo a Educação como tema de grande destaque na construção e consolidação de um novo projeto de sociedade.

Enfim, crítica social, militância ativa, dedicação à docência, a pesquisa, ao publicismo; o sociólogo e professor, político engajado na luta contra desigualdade, na defesa da educação pública, do socialismo, da democracia e da solidariedade entre as classes trabalhadoras e entre dos povos latino-americanos fizeram do Professor Florestan Fernandes, um grande homem de nosso tempo – coerente, sonhador e comprometido com sua classe.

Prof. João Vinícius Carvalho Guimarães

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