quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A 11° Tese sobre Feuerbach: considerações filosóficas

Algumas frases quando formuladas por um grande pensador, traduzidas e impressas em várias línguas e que é capaz de sintetizar razoavelmente bem o espírito de uma época, ganham, ao longo de décadas, um esplendor tão reluzente que chega a ofuscar seu próprio brilho. Esse é o caso daquela que pode ser considerada tanto o trunfo como o calcanhar de Aquiles do pensador alemão Karl Marx: trata-se da famosa 11° tese sobre Feuerbach, Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; agora é preciso transformá-lo”.

Em forma de um breve ensaio pretendo expor algumas reflexões sobre essa tese, que, por ser constantemente abusada e banalizada, passando de uma anotação extraordinária e se tornando, posteriormente, uma bandeira retórica para aqueles que pregam o abandono da teoria e do pensamento, assumindo ares de rebeldia política quando apoiada – erroneamente - na autoridade de Marx. Para compreender melhor o que o próprio autor da tese intenta ao formulá-la, será importante, em primeiro lugar, localizar o momento de sua composição e os aspectos históricos da aparição da frase. Em seguida, após o esforço de explicitação da tese e de procurar compreende-la inserida no pensamento de Marx, buscaremos apresentar como a tese alcança uma dimensão crítica frente à tradição de filosofia política.


Antes disso, porém, é preciso deixar claro um objetivo implícito nessas linhas iniciais: embora as obras de Marx sejam mais lidas atualmente nos cursos das chamadas “ciências humanas” (História, Sociologia, Antropologia e Política) e na Economia, suas obras tem na base de seus argumentos, teses e conceitos filosóficos de alguém que estudou e praticou Filosofia, atribuindo dignidade à disciplina quando a postulou como uma das atividades a serem realizadas numa sociedade sem classes, liberada do fardo do trabalho, e sem Estado, isto é, liberada da política. Assim, neste ensaio, Marx receberá o abandonado, porém, merecido, tratamento de “Filósofo”.


Marx escreveu as Onze Teses sobre Feuerbach na primavera de 1845 em Bruxelas. A princípio, tratava-se de anotações feitas num embalo de pensamento em vista da elaboração da Ideologia Alemã, finalizado em 1846, mas definitivamente publicado apenas em 1933. A publicação completa das Onze Teses, no entanto, foi feita por seu fiel escudeiro Engels, em seu livro Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Engels revisou e corrigiu a parte estilística dos escritos de Marx – pois se tratava somente de rascunhos – preservando o conteúdo e a seqüência das teses com o fim unicamente de entendimento próprio. Cabe registrar a importância que Engels atribuiu a essas teses na introdução a Ludwig Feuerbach: “Trata-se de notas para posterior elaboração, registradas rapidamente, em absoluto destinadas à impressão, mas inestimáveis como o primeiro documento em que foi depositado o germe genial da nova visão de mundo”.

Há uma discussão não muito relevante, mas que é interessante mencionar para adentrarmos de uma vez em nosso assunto sabendo melhor onde estamos pisando. Observando o modo como as teses estão agrupadas, podemos perceber vários pontos de conexão entre elas que não respeitam a ordem numérica nem seus próprios conteúdos. Assim, para podermos compreendê-las filosoficamente, isto é, segundo sua ordem argumentativa e de acordo com seus temas e conteúdos, adotaremos a sugestão de Ernst Bloch dividindo-as em grupos. O primeiro é chamado de grupo epistemológico, referente à contemplação e a atividade, cujas teses são 5, 3 e 1; o segundo, o grupo histórico-antropológico, que se refere a auto-alienação, sua causa real e o verdadeiro materialismo, as teses que o compõe são 4,6,7,9 e 10; o terceiro é o grupo teoria-praxis, referente a comprovação e validação, teses 2 e 8; o último contém a tese objeto de nosso estudo, que não se enquadra em nenhum dos outros grupos e, por isso mesmo, constitui sozinha um único grupo, o qual propomos caracterizá-lo no decorrer de nossas investigações.

Fixando nossas atenções exclusivamente na 11° tese, sem qualquer informação adicional, ainda que tenha recebido várias traduções diferentes - algumas, inclusive, alterando consideravelmente seu sentido – vemos que ela se divide em duas proposições, onde 1) “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras” pode ocorrer sozinha sem qualquer complemento, e 2) “agora é preciso transformá-lo” pede uma informação precedente. Isso quer dizer que a 1) poderia estar sozinha e, ainda assim, ser compreensível, ao passo que 2) seria ininteligível caso estivesse só. Importante notar, além disso, o jogo que envolve o passado e o presente nas duas frases. Em 1) a palavra “interpretaram” sugere uma atividade já exercida, que ocorreu no âmbito do passado. Na segunda frase, o advérbio de tempo “agora”, indica algo que esteja no tempo presente, desempenhando, desse modo, um papel de continuidade temporal em relação à sentença anterior. Mas, questionemos, porque esse tipo de análise seria relevante para o propósito em questão?

Ora, precisamente para explicitar a relação de dependência da segunda proposição à primeira. A análise nos diz que 2) está apoiada em 1), ou que para transformar o mundo antes é preciso que os filósofos já o tenham interpretado de diversas maneiras. Nesse sentido, podemos dizer que a condição necessária para se transformar o mundo tem origem nas interpretações filosóficas. Em outras palavras, a interpretação do mundo, uma das tarefas da filosofia, indica o modo como o mundo deve ser transformado.


Por ora, deixemos o exame intrínseco da tese discutida para especular a discussão na qual a 11° tese está inserida. Embora seja mesmo uma crítica à tradição de pensamento político, no entanto, a tese em questão integra um conjunto de proposições que visam criticar Feuerbach em relação a sua postura idealista ao tratar da religião. Para Feuerbach, Deus é apenas uma projeção dos poderes humanos divinos e nada mais do que isso. Feuerbach somente soube dissolver a religião enquanto construção ilusória do homem, atribuindo a este Deus como essência, isto é, preservando a individualidade humana. Só que Marx não se contenta com uma crítica que simplesmente aponta onde está o erro, para ele é preciso compreender as causas de tal erro. Afirmar que “a religião é o ópio do povo” é apenas detectar uma ilusão, e a causa desse engano deve ser procurada considerando o homem em sua condição material e não como ser divino. Esse procedimento implica numa ruptura, passando de um idealismo que mantém o erro intacto para um materialismo da práxis. Isto é, em Marx, o idealismo deixa de ser uma abstração derivada da realidade prática em contradição, para ser uma práxis que constitui a realidade última e determinante. Daí a 11° tese, a qual expressa a passagem do idealismo para o materialismo, da interpretação para a transformação. Assim, podemos dizer então que o que explica a necessidade da religião é a alienação da prática, quando o homem está separado dos outros e do produto de seu trabalho. “A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não gira à volta de si mesmo”.


Encontramos, contudo, na “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, escrito após as Onze Teses, uma frase que permite clarificar a décima primeira tese dentro do pensamento de Marx sem se recorrer à discussão acerca da religião. A respeito da tradição filosófica na política alemã, Marx escreve que “não se pode superar [no sentido hegeliano, abolir] a filosofia sem realizá-la”. Mais uma vez aqui se apresenta o aspecto referente à temporalidade, da abolição da filosofia à sua realização, de tal maneira que se torna impossível a ocorrência de ambas ao mesmo tempo. É por isso que nos permitimos reformular a 11° tese da seguinte maneira: “os filósofos tem interpretado o mundo tempo suficiente; é chegado o momento de transformá-lo”.


Importante ressaltar o guia sobre o qual apoiamos essas considerações. Seguimos nessa exploração os passos de Hannah Arendt, a qual soube tratar a filosofia de Marx com seriedade e reverência, se esquivando apropriadamente de uma crítica que se pudesse dizer “marxista” ou “marxiana”. Pois, assim como o Cristo histórico não era cristão, também Karl Marx não era marxista. Arendt torna-se importante nessa investigação devido a sua posição intelectual original e a sua contribuição no estudo dos regimes totalitários, que permitiram, por conseguinte, que ela desenvolvesse uma compreensão das teses fundamentais de Marx a luz das experiências políticas (ou não-políticas) daquilo que foi considerado por ela como a quebra factual da tradição de pensamento político ocidental.


Entretanto, segundo Arendt, para a filosofia tradicional, a 11° tese seria em si mesma algo sem sentido, pois, transformar o mundo conforme a filosofia seria uma contradição em termos. Não é por acaso que persiste até hoje a antiga concepção de que “o mundo permanece o mesmo, com ou sem a filosofia”. De Platão a Hegel, o espaço próprio da filosofia situava-se fora da caverna, pois nunca foi “deste mundo”. Porém, desconfiamos que a afirmação de Marx não foi mera ingenuidade, e a contradição, nesse caso, não parece anular o sentido da frase, ao contrário, amplia, adquirindo um sentido ainda maior.


Marx tinha um alvo com essa afirmação escandalosa: a tradição. Por isso, a frase ganhou tanta repercussão entre leitores e não-leitores. Era ameaçador para a filosofia, que sempre esteve no domínio das idéias, e que sempre foi para “os eleitos”, se igualar um dia com os assuntos humanos, onde convivemos, agimos e pensamos conforme o senso comum.


O que podemos vislumbrar com a 11° tese é a antiga querela acerca da hierarquia entre, pensamento e ação, contemplação e trabalho, e Filosofia e Política. Ao virar Hegel de cabeça para baixo, como se diz, Marx propunha a inversão desta tradicional hierarquia, mas não um puro abandono da teoria e do pensamento. Com efeito, nos parece que sua tentativa de pensar contra a tradição não poderia ser feita a partir de conceitos inéditos criados no calor de sua revolta. Ainda que os acontecimentos presenciados por ele fossem novos suficientes a ponto de não se enquadrarem nos conceitos tradicionais, Marx não podia inventar um número tão grande de ferramentas para lidar adequadamente com esses acontecimentos. O que pode ser constatado, então, na filosofia de Marx é a manutenção do quadro de referências tradicionais que vigoraram num período histórico diferente daquele em que viveu.


Suspeitamos, porém, que Marx parecia estar consciente dessa dificuldade na qual se embaraçava. Exemplo disso é a famosa frase do “18 Brumário”: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Sua atitude face a Filosofia, em repudiá-la, para, em seguida, realizá-la, é uma tentativa de questionar a hierarquia tradicional, porém, não se trata de uma atitude não-filosófica. O próprio intento de abjurar da Filosofia constitui em si mesmo uma decisão filosófica. É por isso que Marx ao propor na segunda proposição a “transformação do mundo” não está ao mesmo tempo abandonando a Filosofia. Como observamos em nossa análise, a “interpretação” dos filósofos e a “transformação” do mundo, constituem dois momentos distintos, que não se confundem necessariamente, onde a transformação supõe a interpretação – talvez aí se encontre o calcanhar de Aquiles. A tal realização da Filosofia, quer dizer, a intrusão da Filosofia nos assuntos públicos, isto é, na Política, torna-se algo pernicioso tanto para a Política, quanto para a Filosofia. O que chamamos imprecisamente de ideologia, ou seja, “tudo”, é uma estranha mistura de uma pseudociência com uma pseudofilosofia e representa, de certo modo, a junção da Filosofia com a Política.


A ideologia, como o próprio nome diz, implica na lógica de uma idéia, de tal modo que os ideais que, justamente por serem “ideais”, estão completamente apartados da realidade concreta e não podem continuar como “ideais” quando efetivados, estão submetidos a um implacável raciocínio onde dado uma premissa segue-se necessariamente uma conclusão. Esse é o caso, por exemplo, da ideologia nazista segundo a qual a superioridade da raça ariana, como um ideal, está submetida a uma cadeia inexorável fora de qualquer possível discussão ou contestação. Além disso, se como dizemos hoje em dia, tudo é ideologia, então não faz o menor sentido afirmar que algo é uma ideologia. Ora, se tudo é uma ideologia, isso cai numa trivialidade, pois, obviamente, tudo é tudo, tudo é ideologia, ideologia é ideologia. Isso é vazio e completamente sem sentido.


A verdade filosófica, distinta da verdade factual, quando se insere na esfera política tende a exercer um papel semelhante ao da ideologia tal como foi caracterizada acima. Na discussão filosófica lidamos com premissas que, quando aceitas, levam necessariamente a uma outra, ou a uma determinada conclusão. Nesse sentido, a verdade filosófica é coerciva, pois se aceitamos algo, somos obrigados, por força da argumentação, a aceitar o que se segue necessariamente - tal é a força da ideologia nazista. Uma vez que a superioridade da raça ariana é tomada como um axioma indiscutível, então, necessariamente, seja através de que meios for utilizado, concretizará o domínio mundial nazista. É claro, por outro lado, que também há outros elementos que influenciaram os nazis, tais como as idéias evolucionistas e o imperialismo. Mas o que é relevante destacar, por fim, é que a Filosofia constitui um domínio teórico diferente da Política, ademais, quando uma se intromete na esfera prática da outra - a História nos mostra - não se dá em boa coisa.


Desse modo, essa avaliação torna-se importante na medida em que o pensamento de Marx é tratado não como um tabu insuperável ou como um paradigma indubitável, mas imerso na discussão filosófica característica de sua época. Isso, por um lado, contesta a cientificidade atribuída as suas teorias, que o coloca independente do diálogo especulativo e, por outro lado, considera-o como uma figura no rol da Filosofia, isto é, num espaço onde ele pode ser criticado, contestado e reformulado, segundo as exigências da época.

Referências bibliográficas:

MARX, Karl. A ideologia alemã: 1. capítulo seguido das teses sobre Feuerbach. São Paulo: Moraes, 1984.

MARX, Karl. O 18 brumário e cartas a Kugelmann. 7. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2005.

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Vol I. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ, Contraponto, 2005.

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Cap. 1 A Tradição e a Época Moderna 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Por Rodrigo de Ulhôa Canto Reis - UFRGS


5 comentários:

  1. Ulhôa, ótimo texto, pois ele mostra parte da origem do marxismo, que apesar de sua leitura da sociedade, seu pilar primevo é a filosofia, estudos de Feurbach e Hegel.

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  2. Texto grande, mas bom mesmo, entendi melhor a construção do saber esquerdista.
    Liro frade

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  3. muitoo bom o texto, me ajudou bastante.

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  4. Gostei de ler...a brecha entre a teoria e a prática...é agrande questão...Aí entra a nobreza da política como bem lembra também hannah Arendt

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