domingo, 1 de novembro de 2009

Idade Média: Mentalidades, Sensibilidades e Atitudes

As Mentalidades, sensibilidades e atitudes do homem medieval tinham, com toda a certeza, um único sentimento motor, a insegurança. Essa insegurança se refletia tanto sobre o campo moral, quanto no material.

A insegurança material se dava através da dificuldade de conseguir se manter, alimentar, aquecer, etc..., porém a insegurança moral se dava pelos dogmas pessimistas que eram colocados pela Igreja. Ao homem jamais era, segundo o clero, garantida a salvação, nem pelas suas boas obras nem pela sua boa conduta. O homem devia se apoiar na solidariedade do grupo onde vivia, pois em um ambiente onde o medo sempre prevalecia sobre a esperança era necessário não deixar-se corromper pela ambição. A insegurança na vida futura era tão grande que um pregador franciscano, Berthold Regensburg, disse que a chance de um homem entrar no reino de “Deus” é de 1 em 100.000. E nesse clima de instabilidade as mentalidades, sensibilidades e atitudes da Idade Média estavam sempre sendo movidas pela necessidade de segurança.

A primeira característica notável de uma sociedade insegura é a de colocar o passado acima do presente, ou seja, considerar como seguro apenas o que já foi colocado em prática, condenando as inovações. E retornado ao passado enxergavam a segurança nas antigas autoridades romanas, e como de todas as instituições romanas a única sobrevivente foi a Igreja, ela passou a regulamentar toda a vida espiritual e intelectual da sociedade medieval. A autoridade suprema era as Escrituras, e em segunda ordem os Pais da Igreja. Porém, as glosas passaram a ser tão utilizadas que com o tempo passaram a se tornar autoridades. Porém o peso das autoridades antigas não se limita apenas a área intelectual, mas em diversos setores da vida. Isso determina o tradicionalismo da sociedade, pois a verdade era o segredo, passado de geração em geração, o legado de um sábio que era transmitido aos dignos de sua herança. E essa dependência do antigo fez com que a sociedade medieval passasse a ser regida pelos costumes, pelas tradições.

Outro aspecto de grande destaque na Idade Média é o enorme simbolismo presente em seu pensamento. O simbolismo medieval não se resume apenas em amuletos, brasões e imagens, ele encontra-se principalmente na gramática, na nomeação dos objetos. Existia uma preocupação em fazer com que o nome descrevesse o que era aquele objeto dentro da tradição católica. Por exemplo, podemos citar a maça, a maça na cultura cristã medieval representava o mal, e a palavra maçã vem do latim malum que quer dizer mal, e dentro da enorme liturgia católica encontramos vários outros símbolos com as rosas brancas e vermelhas que simbolizam a Virgem, as bestas mitológicas (grifos, dragões, etc.) que passam a ser consideradas satânicas, e como no período medieval a espiritualidade era o centro do pensamento é comum que o simbolismo de tudo se dedicasse ao reino dos céus, a encontrar a chave para o paraíso. Porém no campo da liturgia cristã o simbolismo medieval não se limitou apenas na ciência da gramática, a arquitetura das igrejas era simbólica em suas duas formas, como explica Honorius Augustodunensis, as igrejas redondas representavam a perfeição circular, enquanto as em forma de cruzes mantinham em si os pontos cardeais resumindo o universo, ou seja, em ambas as formas se colocavam a Igreja com um microcosmo.

Entre as formas mais essenciais do simbolismo medieval, o dos números desempenhou um papel capital, pois orientando o pensamento, foi um dos principais orientadores da arquitetura. Os números eram vistos como criadores de tudo, era empregado tanto na arquitetura quanto na música, Guilherme Passavant dizia: “o arquiteto é um compositor”.

Um exemplo da relação dos números com a arquitetura é a interpretação dos números das escrituras. Segundo Hugo de São Vitor, tomando como partida os 7 dias do Gênesis, 7 > 6, é o repouso depois do trabalho, 8 > 7, é a eternidade após a vida terrestre, o octógono é a forma da Aix-la-Capelle, da São Vital de Ravena, do Santo Sepulcro, da Jerusalém Celeste, entre outros símbolos arquitetônicos cristãos.

Na Idade Média o homem possui um imenso pavor do escuro, as obras artísticas medievais mostram claramente isso, pois sua imensa coloração representava a luz extrema, a busca da luz era a busca da salvação. Além do culto a luz, a mentalidade medieval também cultuava a beleza, viam os santos como figuras belas de corpos atléticos, davam mais importância ao físico do homem do que a sua própria santidade. Segundo essa visão o santo deveria possuir as 7 virtudes da alma, amizade, sabedoria, concórdia, honra, poder, segurança e alegria, e as 7 virtudes do corpo, beleza, agilidade, força, liberdade, saúde, volúpia e longevidade, o belo era o divino.

O pensamento medieval sempre engloba o constante conflito ente os antagônicos, o Bem e o Mal, o belo “Deus” e o Diabo horrendo. E esse dualismo está relacionado a tudo, inclusive aos sonhos tão comuns entre todas as classes sociais da época. Os bons sonhos e as revelações eram vindos de “Deus”, porém os pesadelos e as falsas revelações sempre tinham uma origem infernal, que buscavam fazer com que o homem caísse em tentação.

Porém, ao lado dessa mentalidade mágica e mística se desenvolveram outras estruturas, principalmente através das cidades, mais sem sombra de dúvidas, o realismo intelectual e o racionalismo foram conseqüências do maior acesso do livro. O livro universitário não era mais completo do que o monástico, porém esse era mais divulgado devido a ausência de grandes ilustrações, sua simplicidade permitia uma maior facilidade de produção em massa, através da técnica da pecia. O livro não fez com que os intelectuais da época questionassem a fé, e sim procurar explicá-la de um outro modo, mais racional.

Inicia-se um período de florescimento intelectual, no séc. XIII, o século clássico da Idade Média e um dos mais importantes da história da filosofia. A filosofia escolástica cristã, a filosofia árabe e a judaica, mais o aristotelismo passaram a ser as grandes fontes da Escolástica. É um período de esplendor em todas as manifestações humanas: na arquitetura, na pintura, na literatura, nas ciências é o século da introdução da álgebra e dos algarismos arábicos no Ocidente e do emprego da bússola. É também este o período de esplendor da Escolástica. Para isso, três foram os fatores fundamentais: a fundação das Universidades, o estabelecimento das ordens mendicantes dos dominicanos e dos franciscanos e o conhecimento da obra filosófica de Aristóteles.

No início do séc. XIII, surgiu a Universidade de Paris, resultado da reunião das quatro faculdades: de teologia, de artes (filosofia), de direito e de medicina. Pouco depois, mais ou menos modeladas na de Paris, surgem as Universidades de Oxford e Cambridge, na Inglaterra; Bolonha e Pádua, na Itália; Salamanca, na Espanha; Colônia e Heidelberg, na Alemanha, e Coimbra em Portugal. Nessas universidades, grandes centros intelectuais que perduram até hoje, mantinham-se vivas as tradições platônicas e agostinianas e cultivava-se o aristotelismo.

Em princípios do séc. XIII, fundaram-se as duas grandes ordens mendicantes dos franciscanos e dos dominicanos. Após grandes polêmicas com os seculares, conseguem estes padres algumas cátedras na Universidade de Paris e acabam depois dominando o ambiente universitário. Dentre os maiores filósofos franciscanos apareceram: Alexandre de Halles, o primeiro mestre franciscano; São Boaventura, Rogério Bacon, Duns Scoto e Guilherme de Occam. Dentre os dominicanos: São Alberto Magno, São Tomás de Aquino e o mestre Eckehart.

O conhecimento de Aristóteles foi o fator mais importante para o apogeu da Escolástica do séc. XIII. Nos séculos anteriores, a única obra conhecida de Aristóteles era o "Organon". Em princípios do séc. XIII toda a enciclopédia aristotélica foi divulgada. A princípio, passando por traduções imperfeitas, oriundas do árabe ou hebraica, foram proibidas pelas autoridades eclesiásticas em 1215, sendo mais tarde, por volta de 1254, traduzidas diretamente do grego, sendo incorporadas pela Universidade de Paris.

Desenvolveram-se na escolástica inúmeros sistemas que se definem, do ponto de vista estritamente filosófico, pela posição adotada quanto ao problema dos universais e dos quais se destacam os sistemas de Santo Anselmo (anselmiano), de São Tomás (tomismo) e de Guilherme de Occam (occamismo).

O Tomismo pode ser considerado como a principal doutrina escolástica já que foi adotada oficialmente pela Igreja Católica. A doutrina se caracteriza, sobretudo, pela tentativa de conciliar o aristotelismo com o cristianismo, rompendo com todas as doutrinas que não se harmonizavam com os princípios da filosofia aristotélica.

A obra de Tomás de Aquino, dividida em partes, tratados, questões e artigos, objeções e respostas, em rigorosa ordem numérica, reflete, em sua estrutura, a composição do mundo feudal, dividido em classes e em estamentos rigidamente estratificados. Expressão do apogeu do mundo medieval, contemporânea dos castelos e das catedrais, o tomismo é uma catedral de idéias, em que a teologia do séc. XIII encontrou sua mais coerente e sólida formulação. No entanto, não foi geralmente aceito pelos escolásticos medievais; os adeptos de Duns Scotus combateram o seu intelectualismo e os nominalistas o realismo. Somente na segunda metade do séc. XVI foi reconhecido como arma de defesa e ataque da Contra-Reforma.

Tomás de Aquino apresentou a solução definitiva do problema das relações entre a razão e a fé. Trata-se de duas ciências: a filosofia e a teologia; a primeira funda-se no exercício da razão humana; a segunda, na revelação divina. São duas ciências independentes, mas que apresentam às vezes o objeto material comum: a existência de Deus, a essência da alma, etc. A distinção entre essas ciências deriva mais do objeto formal, pois a teologia estuda o dogma pelo método da autoridade ou revelação, ao passo que a filosofia o considera por demonstração científica ou pela razão.

Teologia e filosofia não se contradizem, ambas procuram a verdade e esta é uma só. A revelação é critério da verdade. No caso de uma contradição entre a razão e a revelação, o erro não será nunca da teologia, mas deve ser atribuído à filosofia, pois nossas limitações cognoscitivas racionais se extraviaram e não conseguiram chegar à verdade.

A Teodicéia é a especulação filosófica para provar a existência de Deus. Tomás de Aquino sustenta que nada está na inteligência que não tenha estado antes nos sentidos, razão pela qual não podemos ter de Deus, imediatamente, uma idéia clara e distinta. A fim de provar sua existência, Aquino procede a posteriori, partindo não da idéia de Deus, mas dos efeitos por “Ele” produzidos. Assim, elege o mundo sensível como ponto de partida, cuja existência é dada pelos sentidos e utiliza a metafísica aristotélica, revelando o seu gênio sintético ao demonstrar a existência de Deus, de cinco modos, que são as famosas cinco vias, que assim se resume:

1a. - A do "Movimento"- É o argumento aristotélico do primeiro motor. ("não é possível admitir uma série infinita de seres que se movem, movendo por sua vez outros seres; logo, é preciso chegar a um motor que mova sem ser movido."). O movimento existe e é uma evidência para os nossos sentidos; ora, tudo o que se move é movido por outro motor; se esse motor, por sua vez, é movido, precisará de um motor que o mova, e, assim, indefinidamente, o que é impossível, se não houver um primeiro motor imóvel, que move sem ser movido, que é Deus.

2a. - A da "Concatenação das Causas"- Tudo está sujeito à lei de causa e efeito. Há, pois, uma série de causas eficientes, causas e efeitos, ao mesmo tempo; ora, não é possível remontar indefinidamente na série das causas; logo, há uma causa primeira, não causada, que é Deus.

3a. - A da "Contingência"- Todos os seres que conhecemos são finitos e contingentes, pois não têm em si próprios a razão de sua existência, são e deixam de ser; ora, se são todos contingentes, em determinado tempo deixariam todos de ser e nada existiria, o que é absurdo; logo, os seres contingentes implicam o ser necessário, ou Deus.

4a. - A dos "Graus de Perfeição"- Todas as perfeições admitem graus, que se aproximam mais ou menos das perfeições absolutas. Deve, pois, haver um ente sumamente perfeito, é o ente supremo - Deus.

5a. - A da "Ordem Universal"- Todos os entes tendem para uma ordem, não por acaso, mas por uma inteligência que os dirige; há, pois, um ente inteligente que ordena a natureza e a impele para o seu fim. Esse ente inteligente é Deus.

Desses conceitos, Tomás de Aquino conclui quanto podemos conhecer sobre a natureza e os atributos de Deus. Observa, porém, que esse conhecimento é imperfeito; sabemos que "Deus é", mas não "O que é". Apesar disso, podemos compreender que Deus é eterno, infinito, onisciente, onipotente e em suas relações com o mundo é Criador e Providência.

A doutrina tomista admite que a alma, princípio espiritual, se junta ao corpo, princípio material, constituindo um composto substancial. Assim, tem uma alma as plantas, é a "alma vegetativa", com as funções de alimentação e reprodução; nos animais, é a "alma sensitiva", com as funções anteriores, mais a sensação e mobilidade; finalmente, o homem com todas as funções anteriores, mais a racional. No concernente às propriedades da alma humana, admite o livre-arbítrio, que é estudado sob todos os seus aspectos e todos os problemas dele derivados são resolvidos com firmeza e profundidade. Tomás de Aquino considera ainda a inteligência como a faculdade mais perfeita de nossa alma.

Com sua Ética, também harmoniza a doutrina de Aristóteles aos princípios cristãos. Assim, a ética é o “movimento da criatura racional para Deus". Esse movimento visa a uma bem-aventurança, que consiste na contemplação imediata de Deus. Diverge da teoria agostiniana e se harmoniza com a aristotélica no que se refere à teoria do conhecimento. Para Tomás de Aquino, o conhecimento tem dois momentos: o sensitivo e o intelectual. O conhecimento sensitivo do objeto, que está fora de nós, dá-se mediante a sensação. Esta é a impressão do objeto material em nossa consciência. Processa-se pela assimilação das sensações do sujeito cognoscente com o objeto conhecido. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensitivo, mas ultrapassa-o, pela abstração e generalização, formulando os conceitos.

Tomás de Aquino é considerado o maior gênio da Escolástica. Criou um sistema filosófico sintético, coerente, fundamentado em Aristóteles, e reformulou todo o pensamento cristão.

A sociedade medieval dava enorme valor as aparências, o que fazia com que as classes sociais se diferenciassem também em seus modos de vestir, comer, morar, etc. Na alimentação, os servos viviam basicamente de uma papa de cereais, enquanto os nobres se “estufavam” com carnes de animais nobres por eles caçados. Nas vestimentas se diferenciavam pelos tecidos, servos viviam de trapos enquanto nobres viviam com sedas finas e panos grossos ornados a ouro. A moradia dos servos era muito simples, na maioria das vezes de madeira, sem móveis. Acreditavam que, a vida na terra é passageira, assim como dizia a Igreja, porém os ricos viviam em seu grandes castelos, cheios de proteção, porém mantinham a tradição da grande sala, onde os móveis se resumem em baús, arcas e mesas, os cômodos divididos por tapeçarias, o grande luxo da época. Somente com o crescimento da burguesia o conforto passou a ser priorizado.

Em resumo o homem da Idade Média que vivia preso em suas estruturas sociais só encontrava a distração nos jogos e nas festas. Os pobres nas festas familiares e nos casamentos consumiam todas as suas reservas ficando empobrecidos por anos, os ricos se empobreciam por meses. Toda a sociedade se libertava da insegurança e da alienação através das festas e dos jogos.

Prof. Rafael Caproni

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