quarta-feira, 31 de março de 2010

Igreja Católica na Colonização da América Espanhola

Introdução

Bem saibamos a forte influência e o grande poder que a Igreja Católica exercera no período conhecido como Idade do Meio, conhecida até mesmo como uma grande Senhora Feudal, controladora de toda a vida social, política e até mesmo econômica na Europa, onde muito se confundia e se misturava o poder Estatal com o poder Religioso. Assim, a Igreja muitas vezes assumia o papel de Estado, controlado pelo Alto Clero.

Enaltecer o poder religioso como um mero meio para não perder o poder político – uma vez que o feudalismo estava em crise – e manter os privilégios da Igreja na Europa não bastou para a ambição do alto clero; e já com toda a experiência de propagar a fé cristã - adquirida nas Cruzadas – para todos aqueles povos pagãos sob a ótica da Igreja, era a mais eloquente substância sob a qual a Igreja participou ativamente no processo colonizador do “Novo Mundo” até então desconhecido pelos europeus amedontrados pela Igreja Católica para não se lançarem no mar desconhecido. Portanto a Igreja se colocou em oposição a suas próprias ideologias sobre um abismo no fim do oceano, sobre seres e monstros que habitavam o tenebroso mar desconhecido.

Com toda a sua cobiça de levar a fé cristã (pois era altamente lucrativo mais fiéis) a Igreja esteve presente desde o primeiro momento no processo de conquista, desempenhando um relevante papel no que condiz à dominação daquele povo sem cultura e sem fé, assim vistos pelos europeus tão empenhados em propagar a fé católica que em nome de Jesus Cristo e de seu rei irão cometer atrocidades e verdadeiros genocídios com os nativos aqui no “Novo Mundo”; atos estes permitidos pelo Alto Clero que irá despertar opiniões sobre o comportamento dos espanhóis na forma em como colonizar os índios. Irá surgir aqueles que apóiam o massacre para impor a colonização e a cristianização dos nativos, como é o caso de Sepulveda, e também aqueles que apóiam a colonização e a cristianização sem o massacre e sem as violentas guerras contra os nativos, onde irá destacar Bartalomeu de Las Casas como um defensor da cristianização do nativos de modo a valorizar a pessoa humana.

Enalteceremos o papel da Igreja no processo de colonização da América Espanhola bem como a visão que esta tinha dos nativos e discutiremos o papel de Sepulveda e de Las Casas, que eram representantes da Igreja, no processo de colonização.

1 – A Igreja e a Colonização

Em uma análise crítica e profunda a cerca do “descobrimento” do “Novo Mundo”, podemos afirmar que ao gosto de Colombo sua maior intenção não era o enriquecimento e sim a propagação da fé cristã assim como afirma Hilário (2008, p. 64):

A ambição de Colombo não era totalmente em relação á obtenção de riquezas, embora fosse com a promessa de ouro que ele acalmava a sua tripulação e o rei da Espanha, o financiador da viagem. A expansão do cristianismo era muito mais importante para Colombo doque o ouro: [...].

Nessa perspectiva podemos afirmar que o “descobrimento” das novas terras por Colombo teve como ponto de partida o objetivo de propagar a fé cristã, na qual Colombo prometendo ao rei da Espanha, Fernando de Aragão – financiador da viagem - que traria consigo riquezas, tendo em vista o contexto histórico pelo qual a Europa passava com a crise do Feudalismo e a busca por metais preciosos era de fundamental importância para a Espanha.

Após a constatação da chegada de Colombo em terras a oeste do continente Europeu – achando que havia chegado no Oriente – e vendo aquele povo tão inocente que trocara ouro por qualquer que fosse a troca, constatando a grande quantidade de metais preciosos naquelas terras, os espanhóis se viram como seres superiores até mesmo culturalmente àqueles nativos – nomeados de índios – que por sua ótica – a primeira vista - viam os espanhóis como verdadeiros deuses. Por esse fato, considerando-se superiores aos nativos, levando em consideração as proporções do mercantilismo na Europa os espanhóis tão logo trataram de colonizar aquelas terras, e para isso não contaram nem com a vida, nem com a cultura dos nativos. Com o início da colonização os nativos sofreram toda e qualquer tipo de violência e ao mesmo tempo em que Colombo os subjulgavam como seres bárbaros também os consideravam homens na proporção que procurou convertê-los, conforme afirma Ferro (1996, p. 50).

Se traz a religião, é porque os considera homens, iguais e idênticos a si mesmo, e, portanto, pode convertê-los. Mas basta que eles não se deixem mais espoliar e Colombo já começa a achar que convém subjugá-los, com o gládio, se necessário: “Eles prestam para ser mandados”. Portanto, os que ainda não são cristãos só podem mesmo é ser escravos. [...]

A Igreja até que se preocupou na elaboração de algumas leis à respeito de proteção dos nativos, mas tão inúteis que nem ao menos preservou legados culturais, como é o caso da civilização maia. A crueldade e a brutalidade dos espanhóis foi, segundo Carvalho (S/D) decorrência deireta de uma época na qual antigas justificativas religiosas das desigualdades entre os seres humanos conjugaram-se ao nascente desejo desenfreado de enriquecer dos europeus. [...].


A Igreja ao se deparar com povos tão diferentes, adoradores de vários deuses, que cometiam sacrifícios humanos em oferenda aos deuses, consideraram-os como povos sem fé, sem cultura e na perspctiva de uma colonização até mesmo em nome de Jesus Cristo, a Igreja começou um processo de catequização dos índios, para os tornarem seres com almas, mas nunca o bastante para se tornarem homens livres.

Como se observa, os espanhóis chegaram à América certos da superioridade de sua civilização e dos seus valores. Os outros eram bárbaros, pagãos. Canibais, que não conheciam a escrita, a tração animal, nem, é claro, o único e verdadeiro Deus. Realizavam cultos estranhos – muitas vezes, com sacrifícios – a deuses desconhecidos. Por fim, falavam outra língua, tornando ainda mais incompreensíveis seus hábitos, costumes e crenças.

Eis uma característica, incipiente na época, mas que se intensificará no decorrer da Era Moderna: o desrespeito às diferenças e à cultura dos outros povos. De fato, a modernidade é marcada por um intenso processo de homogeneização das identidades culturais, de silenciamento de saberes e práticas sociais alternativas e, enfim, de naturalização das relações de poder através da imposição de discursos e verdades supostamente únicos e universais. A imposição de dogmas religiosos – e, hoje, acrescentaríamos, científicos – como forma de dominar e subjugar povos estranhos é, com certeza, algo ainda marcante na nossa época. (CARVALHO, S/D, p. 57)

Certos de sua supremacia, a Igreja controlando e manipulando a vida das pessoas e tomando frente a colonização “preocupados” com a vida insana que os nativos levavam, baixou vários documentos regularizando a colonização como é o caso da Bula de Participação na qual o Papa conferia o poder de colonizar aos espanhóis – isso porque achavam que o Papa havia recebido o poder das terras americanas de São Pedro conforme liam no Requerimento - que como contrapartida tinha a missão de difundir a fé católica. Também não podemos deixar de falar aqui do Requerimento, documento de fundamental importância que permitia a intervenção nas colônias podendo declarar guerra justa àqueles que se opunham ao domínio espanhol. Temos também a Lei dos Burgos que bem dizer era a preocupação com a forma de tratamento dos índios e colocando como responsabilidade dos encomendeiros a cristianização dos índios e a instrução dos filhos dos caciques. Assim como também as Leis Novas, na qual proibia novas conquistas e o confisco de encomendas que ainda prevaleciam na colônia. Como nós brasileiros, já calejados com o não cumprimento das Leis pelos altos escalões e a impunidade como sempre permanece, nada foi diferente naquela época.

Ocorre que tais leis não foram efetivadas. A forte resistência por parte dos encomendeiros, inclusive com a realização de motins, pode ser pontada como a principal causa. Em termos jurídicos, criou-se um instituto que permitia que, em havendo razões justificadoras, as leis da Coroa não fossem cumpridas na colônia: “Se acata, pero no se cumple”, diziam os conquistadores. Com base nesse dispositivo, a autoridade colonial podia suspender o cumprimento da lei da Coroa, cabendo ao rei homologar o feito ou, ao contrário, determinar – o que dificilmente acontecia – o seu imediato cumprimento. (CARVALHO, S/D, p. 61)

2 – Las Casas versus Sepúlveda

Encomendeiro que com medo do juízo final perante Deus, Las Casas abre mão dos prestígios do cargo para ingressar como dominicano na defesa dos nativos aqui da América, reconhecia a dignidade e os direitos humanos dos nativos, baseando-se no direito natural. Mesmo assim, Las Casas não os reconheciam como seres iguais aos de sua origem européia. Condenava as atrocidades cometidas com os ameríndios pelos espanhóis.

Las Casas denunciou a realidade trágica dos indígenas por meio de sua obra, aliando elementos do Cristianismo com os trágicos da Conquista. Para ele, nada era mais perceptível do que a dizimação, a ameaça e a destruição feitas pelos espanhóis na colonização. (AMEDI, 2007, p. 1)

Las Casas não se opunha à colonização, mas sim ao modo de como era conduzida a colonização, os meios violentos usado pelos espanhóis, os massacres e todas as atrocidades cometidas com aqueles povos. Defendia e reconhecia as diferenças e apontava que se para os espanhóis os índios eram “bárbaros” – como afirmava Sepúlveda – para os índios os espanhóis também eram “bárbaros”, pois eram diferentes de sua cultura, falavam outra língua e sem contar da real barbaridade que os espanhóis cometeram com os nativos. Essa afirmativa segue a mesma linha de pensamento a respeito da relativização de povos bárbaros na defesa de Las Casas na perspectiva de Carvalho (S/D, p. 66),

[...] Para tanto, relativizou o conceito, demonstrando que, sob a ótica dos ameríndios, os espanhóis também eram bárbaros, na medida em que falavam uma língua ininteligível e, o que é pior, cometiam atrocidades e crueldades de toda espécie contra os habitantes do Novo Mundo. Foram tais atrocidades, acrescenta Las Casas, que puseram a organização social dos indígenas em desordem, sendo um equívoco apontar que, desde o início, conforme sua natureza, os índios viveriam nesse estado.

Ao contrário de Las Casas, Sepulveda defendia as atrocidades sobre os ameríndios, pois os consideravam inferiores à sua civilização e portanto era justo que pessoas de níveis mais baixos fossem submetidos ao domínio. Sepulveda ainda defendia que quando a submissão não fosse aceita de forma pacífica, era permitida a violência e qualquer que fosse a forma brutal sobre os povos a fim de mostrar-lhes o poder superior dos espanhóis.

Portanto, sendo certo que os índios eram povos bárbaros – ou seja, que não têm fé, leis, sacrificam e se alimentam de vítimas humanas em cultos satânicos –, inferiores aos espanhóis, nada mais justo e conforme a natureza que estes os dominassem. Além disso, os conquistadores poderiam recorrer à violência a fim de impor a dominação, pois a conquista era vista como um ato de justiça, capaz de retirar o bárbaro da sua barbárie, oferecendo-lhe todas as benesses da vida civilizada. (CARVALHO, S/D, p. 64)

3 – Conclusão

O processo de colonização da América recebeu fortemente influência da Igreja Católica, tanto na defesa da colonização sob massacres e genocídios, reconhecendo a desigualdade entre as raças para impor o poder quanto na defesa de uma colonização reconhecendo a dignidade, as diferentes identidades e tendo a igualdade entre os homens para uma colonização mais humana. Tanto Sepúlveda quanto Las Casas defendia a colonização, porém com formas diferentes de colonizar. A elaboração de Leis, em um modo complexo, foi inútil. A certo de que a impunidade foi apoiada, já que as terras americanas estavam longe da coroa e dos olhos do rei, também não é de duvidar que se estivesse perto, este não fecharia os olhos para tanta crueldade, pois o que realmente interessava era o enriquecimento da Coroa, tendo em vista o latente mercantilismo que se alastrava pela Europa. Assim como hoje o imperialismo estigmatiza nações também o colonialismo seguiu a mesma ideologia, preponderando sempre a forma do mais forte sobre o mais fraco, como no capitalismo o capital se sobrepõe a qualquer poder o mercantilismo – a forma primitiva do capitalismo – também não foi diferente, baseando-se no metalismo não havia qualquer que fosse a ideologia que cessasse o massacre das civilizações. O desrespeito com as leis e a impunidade é impregnado na América Latina como legado cultural, pois nós brasileiros quem digamos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMEDI, Natalia da Costa. Bartalomé de Las Casas. Disponível em: http://www.unicamp.br/%7Eaulas/Conjunto%20III/r2.pdf. Acesso em: 11 de Abril de 2009.

CARVALHO, Lucas Borges de. Direito e Barbárie na Conquista da América Indígena. Disponível em: http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/sequencia/article/viewFile/1261/1257. Acesso em: 08 de Abril de 2009.

FERRO, Marc. História das Colonizações. São Paulo: Campanhia das Letras, 1996.

HILÁRIO, Janaína Carla S. Vargas. História da América I. Londrina: Editora CDI Unopar, 2008.


por Hugo Fernando do Couto Faco

9 comentários:

  1. Professor Hugo, imagina se fosse para escrever sobre os atos horrendos da igreja... rapaz, seria um filme de terror....

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  2. Hugo Fernando do Couto Faco4 de abril de 2010 20:27

    pois é Yuri.. isso porque estamos nos referindo ao passado, triste mesmo seria um filme sobre a situação atual da igreja católica, vejamos bem o caso circulante na mídia sobre os casos de pedofilia. Como pode uma instituição pregar tanto pelo amor ao próximo, pela proibição de tantas coisas, sendo que os próprios integrantes maiores da instituição relgiosa (para não dizer política) não são capazes de seguir o que pregam.... deve ser pelo ditado... "fazes o que digo mas não o que faço"...

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  3. www.prefacioaopensamento.blogspot.com

    ótimo blog, me tornei seguidor.

    Visite o prefácio.
    Abração professor, sucesso.

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  4. E ai Yuri, blz???
    Eu vi sua entrevista no jornal do Meio Dia pela TV Plan (do dia 21/04) e decidi pesquisar e encontrei o seu blog! Achei muito interessante a sua visão do mundo e dos acontecimentos do passado que refletem muito no nosso presente e futuro...
    Enfim, estarei sempre passando por aqui!
    Quero deixar um forte abraço.
    Até mais.

    Rodrigo Augusto.

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  5. Gostei muito da sua idéia professor , como voçê ver os acontecimentos passados Abraço

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  6. ...Nada se cria, tudo se transforma. Os fatos se repentem no transcorrer da historia... e assim as pressões e a intolerancia continuam.
    Otima materia.

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  7. Realmente Jorge... até mesmo a investigação histórica é um verdadeiro retrocesso. Jamais abordamos uma investigativa histórica sem analisarmos primeiramente o presente, fato que põe a história sob a influência do homem, tanto do ser quanto sujeito como o próprio historiador. Assim, como disse Marc Bloch as história é feitas às avessas, sempre partimos de questões do presente que nos chama a atenção para analisarmos um fato no passado.
    Um abrç.

    Prof. Hugo F C Faco

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  8. foi muito boa a explicação sobre como foi a cristianização dos índios para com os espanhóis, gostei muito, e ainda vai ajudar no meu trabalho de história... obrigada

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